TREVIZAN, M.A.; FÁVERO, N.; NUTI, E. Educação e treinamento em serviço para atendentes de enfermagem. Revista de Enfermagem EERP-USP, v.01, n.2, p.63-69, 1973.

 

EDUCAÇÃO E TREINAMENTO EM SERVIÇO PARA ATENDENTES DE ENFERMAGEM

 

Maria Auxiliadora Trevizan[1], Neide Fávero[2], Elba Nuti[3]

 

INTRODUÇÃO

 

A carência de pessoal de enfermagem credenciado, em nosso país, tem sido bastante comentada e constitui motivo de muita preocupação por parte dos estudiosos do assunto. Num trabalho realizado por Dormeyer (1962, p.31) verificou-se que quanto a porcentagem de pessoal que trabalha em enfermagem nos hospitais brasileiros, 70,8% são atendentes e apenas 7,8% enfermeiros.

Por atendente se considera "uma categoria de pessoal da qual se exige apenas que saiba ler e escrever e que pode ter recebido, ou não, treinamento em serviço" (Ferreira-Santos e Minzoni, 1968 p.396).

Uma vez que o grupo de atendentes, ou seja, do pessoal não qualificado ainda constituir a maioria do pessoal de enfermagem em nossos hospitais, a grande preocupação dos enfermeiros está voltada para a educação e o treinamento desses elementos.

A educação e o treinamento em serviço são da responsabilidade da instituição a que se destinam os funcionários. Entretanto, existe alguma variação quanto a este aspecto. Alguns hospitais mantém serviços educacionais organizados, sendo os responsáveis, elementos de alto nível técnico. Outros hospitais, entretanto, não dispõem desses serviços educacionais organizados, cabendo então ao enfermeiro (responsável pelo Serviço de Enfermagem ou chefe da Unidade de Internação) a responsabilidade do treinamento. Outros ainda, não dispõem nem mesmo de pessoal qualificado para o treinamento de atendentes. Neste caso, esses hospitais recorrem a outras instituições de saúde ou educacionais.

 

Educação em Serviço:

 

Entende-se que a finalidade da educação em serviço é melhorar a assistência de enfermagem ao doente. Para isso, o enfoque do programa deve estar colocado nas atividades a serem executadas pelo grupo de atendentes. Como essa educação está inclusive voltada para a qualidade de serviço prestado ao paciente, sente-se necessidade de que ela seja uma atividade contínua e dinâmica. Isto é possível de ser realizado, pois não constitui uma atividade que será executada fora das horas de trabalho do pessoal, como pode ser compreendida através de sua definição: "por educação em serviço entendemos o ensino do funcionário,realizado dentro da própria instituição e dentro também das horas de serviço" (Bittencourt, 1957, p.21).

Atendendo as necessidades da instituição, o programa de educação em serviço deve ser planejado visando dois grupos de atendentes: um grupo abrangendo os atendentes novos, ou recém-admitidos e o outro, os atendentes que já trabalham no hospital há mais tempo. Na realidade, há pois necessidade de dois programas, um, para os novos, que consiste no treinamento em serviço, e o outro, para os antigos, suplementando o treinamento inicial, atualizando conhecimentos e corrigindo falhas, o que é normalmente denominado como educação contínua.

Para realizar um programa para atendentes que já trabalham na instituição, há necessidade de se fazer um levantamento da atuação deste pessoal no desempenho de suas atribuições. Para isso, o responsável precisa realizar uma observação dos desempenhos do atendente bem como anotá-los. A seguir deverá fazer uma entrevista para obter mais dados e completar a observação. Esses dados fornecerão elementos para se elaborar um programa de acordo com as necessidades levantadas.

No presente trabalho se entrará em maiores detalhes quanto ao treinamento para recém-admitidos.

 

Treinamento em Serviço:

 

Sendo o atendente um elemento não profissional da equipe de enfermagem, necessita de um treinamento a fim de adquirir conhecimentos dos princípios básicos de enfermagem e desenvolver atitudes adequadas ao desempenho de suas atribuições.

Para realizar esta tarefa o responsável tem que tomar conhecimento do grupo com o qual ele vai trabalhar, ou seja, saber a idade, sexo, ocupação anterior e escolaridade dos sujeitos. Esses dados lhe servirão de base para adequar o ensino às características do grupo.

Apresentar-se-á a seguir sugestões para elaboração de um programa.

 

Programa para Treinamento de Atendentes:

 

Finalidade: pretende-se com esse treinamento melhorar a qualidade da assistência de enfermagem nos hospitais.

Objetivos: espera-se através do treinamento que o atendente seja capaz de:

- falar sobre o valor de seu trabalho e sobre a importância das tarefas que executa;

- participar ativamente na equipe de enfermagem;

- discriminar os sinais e sintomas mais comuns das doenças;

- executar técnicas de enfermagem designadas pela instituição onde trabalha;

- demonstrar atitudes adequadas no desenvolvimento de seu trabalho;

- responder às argüições e apresentar trabalhos escritos.

O total de horas previsto é de l80, sendo 20 teóricas e 160 teórico-práticas.

As técnicas de aprendizagem utilizadas serão as seguintes: aulas expositivas, argüição, discussão em grupo, visita aos diversos setores da instituição e demonstração de técnicas de enfermagem na Unidade de Internação,

Os recursos áudio visuais serão os seguintes: quadro negro, cartazes, álbum seriado, material específico para o desenvolvimento das técnicas, e impressos específicos da instituição.

A avaliação da aprendizagem será feita de duas formas: teórica e prática. A avaliação teórica constara de respostas a questionários escritos e orais, da participação em grupo de discussão e da realização de prova escrita. A parte prática compreenderá a demonstração de atividades e atitudes do atendente durante o treinamento nas Unidades de Internação avaliadas através de um roteiro de observação elaborado pela enfermeira.

 

Divisão das Unidades:

 

1ª unidade: Orientação ao curso.

 

Número de horas previstas: 1. Tipo de aulas: teóricas.

Conteúdo:

- Apresentação do programa.

- Objetivos.

- Atividades discentes.

- Avaliação da aprendizagem.

 

2ª unidade: Orientação geral sobre princípios filosóficos, éticos e sociais aplicados no hospital.

Número de horas previstas: 2 Tipo de aulas: teóricas.

Conteúdo:

- Filosofia e Organização do hospital.

- O serviço de Enfermagem.

- Relações Humanas.

- Ética profissional.

- Direitos e deveres dos funcionários.

- Atribuições do atendente.

 

3ª unidade: Estrutura e funcionamento do corpo humano, causas e profilaxia das doenças mais comuns, sinais e sintomas e noções gerais.

 

Número de horas previstas: 18 Tipo de aulas: teóricas.

Conteúdo:

- O corpo humano: divisões, desenvolvimento e crescimento.

- Aparelho digestivo.

- Aparelho circulatório.

- Aparelho respiratório.

- Aparelho urinário.

- Aparelho locomotor.

- Glândulas de secreção interna e externa.

- Reprodução.

- Sistema nervoso.

 

4a. unidade: Introdução do atendente na Unidade de Internação.

 

Numero de horas previstas: 160. Tipo de aulas: teórico-práticas.

Conteúdo:

Sub-unidade 1: Higiene, conforto e segurança do paciente.

- Lavagem das mãos.

- Limpeza da unidade.

- Limpeza concorrente.

- Limpeza terminal.

- Preparo de camas com e sem paciente.

- Higiene oral.

- Banho no leito, massagens.

- Lavagem da cabeça

- Toalete da tarde.

- Cuidados com paciente recebendo transfusões de sangue e soro.

- Posições de conforto.

- Proteção contra escara.

- Colocar e retirar comadres e papagaios.

- Lavagem intestinal.

- Administração medicamentosa: VO, IM, instilação -nasal, ocular e auditiva.

- Aplicação de quente e frio.

- Cuidados no pré e pós operatório.

- Cuidados com o cadáver.

- Cuidados com sondas e drenos.

- Tricotomia.

- Curativo simples.

- Enfaixamento.

- Restrição de paciente no leito.

- Movimentação e transporte do paciente.

- Prevenção de acidentes.

- Admissão.

- Alta.

 

Sub-unidade 2: Colaboração no diagnóstico.

- Temperatura.

- Pulso.

- Respiração.

- Pressão arterial.

- Prontuário, anotações.

- Pesagem do paciente.

- Dietas, aceitação.

- Diurese e densidade.

- Controle hídrico.

-Colheita de material para exame (fezes, urina, escarro)

- Posições para exames.

 

Sub-unidade 3: Equipamento e material.

- Noções sobre infecção, desinfecção e esterilização.

- Lavagem de material.

- Preparo de material para esterilizar.

- Manuseio com material esterilizado, material contaminado e com o lixo.

- Economia e conservação do equipamento e material.

 

No preparo e decorrer do curso, o professor fará uso das referências bibliográficas:

- ALVES, E. - Elementos de anatomia e fisiologia. 3a. ed. Rio de Janeiro ; Ed. Rocha Alves, 1963.

- McCLAIN, M.E. e GRAGG, S.H. - Princípios científicos da enfermagem. Trad. de Sylvio Bevilacqua, 2ª ed, Rio de Janeiro;, Ed. Científica, 1970,

- TEIXEIRA, R.B. et alii - Manual do auxiliar de enfermagem, 2ª ed,, São Paulo, 1962.

 

Para o aluno, a referência bibliográfica será a apostila preparada pelo organizador do curso.

 

CONCLUSÃO

 

A educação e o treinamento em serviço para atendentes, como foi dito, é assunto que muito preocupa os enfermeiros, visto que, os atendentes ainda desempenham grande parte das atividades destinadas aos profissionais de enfermagem.

Procurou-se formular um programa de treinamento para atendentes recém-admitidos. Entretanto, este programa constitui apenas uma sugestão, pois não foi colocado em execução e nem testado. Espera-se que posteriormente, com o desenvolver dos trabalhos, ele venha a constituir um material bastante adequado para aqueles que dele venham a se utilizar.

 

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

- DORMEYER, M. - Educação em serviço hospitalar. R. Paul. Hosp., 10(11): 31-34, nov.,1962.

- BITTENCOURT, Z. - Educação do atendente hospitalar. R.Paul. Hosp. 5(11): 21-25, nov., 1957.

- FERREIRA-SANTOS, C.A, e MINZOMI, M.A. - Estudo das atividades de enfermagem em quatro unidades de um hospital governamental. R.Bras, Enfermagem, 21(5): 396-442, out., 1968.



[1] Auxiliar de Ensino da disciplina de Administração aplicada à Enfermagem da Escola de Enfermagem de Ribeirão Preto, da Universidade de São Paulo.

[2] Auxiliar de Ensino da disciplina de Administração aplicada à Enfermagem da Escola de Enfermagem de Ribeirão Preto, da Universidade de São Paulo.

[3] Supervisora do Hospital das Clínicas de Ribeirão Preto.